Bordado N'Água

30. Yvy Marãey, tempo de fazer o que dissemos que faríamos (4)

May 10, 2019

Sabe Guataha, há entre nós um pensamento maniqueísta que frequenta a cabeça da maioria dos políticos e de muitos que se ufanam em não sê-lo, que costuma contrapor a política à técnica, o prático ao conceitual, a reflexão à objetividade. As ciências e os métodos de gestão aplicados ao ato de governar seriam coisas de tecnocratas, mero transplante de práticas empresariais privadas, cortina de fumaça para turvar a existência da falta de vontade política que só alguns teriam. No nosso entendimento, essa confusão promove a pressa em nome da rapidez, a superficialidade em nome da oportunidade, a farsa em nome do resultado. Certa “ciência e arte de governar” é imprescindível à governança pública e à governabilidade, mais do que o loteamento do poder. Por outro lado, nas vezes que quisemos promover um estilo de gestão superior, dentro de padrões classe mundial, fomos premiados com indiferença em escala industrial e ficamos falando sozinhos.  A desconfiança a priori, de tudo que parte de quem governa é inevitável, mas, muitas vezes, o que predomina na sociedade é o cinismo do quanto pior melhor, postura discutível como atitude política até mesmo entre adversários. E tem também a desinformação, Guataha. A propósito daquilo que se ignora a respeito do que é público foi emblemático o espanto de um dos proprietários de grande jornal quando esteve pela primeira vez numa escola pública aqui de Yvy Marãey:  “Mas são assim essas escolas? E existem centenas delas? Estou impressionado!”.  Desinteresse, indolência, cinismo? Tudo é ruim, caminha para o pior e não vale a pena? O buraco desse mundo parece, de fato, ser abissal.  Há sinais de que as macrotransformações (o que seriam elas?) terão que vir um dia, mas seus horizontes são os dos tempos históricos. Com um olho neles e o outro nos brevíssimos anos de serviço que nos foram concedidos, o melhor caminho talvez seja o do jogo persistente de acumulações na direção da mudança certa do espaço de poder onde estivermos inseridos,  seja ele tão somente o das micropráticas de gestão. Existem pelo mundo exemplos notáveis do que pode ser realizado num período tão curto quanto o de uma vida comum, tudo, evidentemente, impregnado de seu contrário e necessitando, sempre, ser refeito. O mais urgente talvez fosse  controlar  a velocidade dos deslocamentos rumo ao nada; torcer o nariz para a  onipresente impotência das políticas públicas. Não lhe parece, Guataha? Óh Palco de abstrata luta, aonde não já não se vê nada, se que um tempo algo se viu, ou o tempo todo apenas se consentiu com um estéril vagar por aí, como alguém que pensando ir longe, apenas saiu de si.

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