Bordado N'Água

31. Yvy Marãey, tempo de fazer o que dissemos que faríamos (5)

Nós de Yvy Marãey parecemos crer na magia das soluções legalistas, uma espécie de reparação maníaca através da regra. Elas costumam brotar como resposta a situações que se forjam em décadas de descaso e se tornam finalmente intoleráveis causando comoção social. .....em estado de mania, reparadores psicóticos de problemas que, de fato, não recebem reparação nenhuma além das lufadas legiferantes. O que dizer do desengavetamento de projetos de leis redundantes para garantir que se publiquem informações que são públicas, para acabar com a corrupção que todas as leis consideram crime, para proteção e defesa do usuário dos serviços públicos que existem para atendê-los, para garantir que servidores públicos sirvam como seria sua missão? Parecem surtos maníacos de reparação que nada corrigirão se, no dia a dia, tempo algum for dedicado às rosas das leis já existentes, reiteradamente mal cumpridas. Pensamos, Guataha, que é no universo nada desprezível das micropráticas que, da necessidade e da experiência, são gestados sistemas de ideias aplicadas que demonstram alcance no tempo histórico pela substantividade que carregam. E deles são oriundas algumas das boas contribuições para o processo de desenvolvimento das ciências horizontais de governo, quando se tem a capacidade de despir-se do preconceito. Mas que vemos, em escala industrial, são variações e adjetivações sempre sobre as mesmas escassas quebras de paradigmas, e estas são engendradas no cotidiano dos serviços, quando os hemiciclos da análise e da síntese se juntam - em nome da superação de dificuldades e da realização de sonhos - em conhecimento prático transformador e desafios às academias para que avancem. É principalmente disso que resultam os macrossistemas de regulação, as novas modalidades institucionais e as organizações exemplares capazes de melhorar a vida das pessoas em sociedade. Claro, Yvy Marãey, precisa de uma ampla reforma política, precisa superar os resquícios do nacional desenvolvimentismo, precisa enterrar de vez a desonestidade na política, precisa de uma real polaridade entre os que propugnam a manutenção do que existe e os que defendem a superação das desigualdades. Mas precisa também de capacidade de governo, porque a incompetência na condução do Estado não tem preferências pela direita ou esquerda, por intelectuais ou sindicalistas, por bem e maus intencionados, por projetos ousados ou medíocres. Tenhamos coragem de romper com nossa arrogância fundamental que atribui aos nossos projetos relevância que nunca demonstraram, com suas ideias e sagas incapazes de aconchegar o espírito e a alma. Dobremos nossos joelhos diante do mistério e sigamos juntos ao seu encontro, garantindo a justiça e a paz indispensáveis para que façamos caminhos.


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