Bordado N'Água

32. Yvy Marãey, tempo de fazer o que dissemos que faríamos (6)

May 17, 2019

Já foi dito, afável Guataha, que para promover os encontros necessários para que um governo faça o que disse que faria, os afazeres devem ficar claro para todos, de cima embaixo, envolvendo todos os setores e agentes, desde a discussão do que fazer.  O primeiro efeito desse desdobramento dos objetivos, seria a comunicação dos objetivos comuns, por si só um poderoso fator de sucesso. Mas as pessoas, além de serem informadas, precisam compreender, o que se informa e internalizar  o projeto.  A partir daí defenderiam a ideias como propostas de todos. Outro fator importante é a coerência das informações que serão monitoradas, sua capacidade de expressarem uma sequência de causas e efeitos necessários para o alcance dos resultados. Trata-se, em última instância, de produzir convergência  de ações visando objetivos finais comuns, tendo em mente que, se as propostas são definidas de cima para baixo é a somatória de  uma cadeia de pequenas ações e resultados, de baixo para cima, que garante seu sucesso. O desdobramento das propostas para a compreensão de todos é um desafio e tanto, principalmente nos governos, porque a prática burocrática é muito arraigada, consistindo na formalização do senso comum convertido em norma. A norma implanta a supremacia acrítica da forma sobre o conteúdo. Não importa o que se busca fazer e que procedimentos seriam adequados para fazê-lo, mas somente a forma que deve ser mecanicamente aplicada, como sempre o foi, em todos os casos anteriores semelhantes. Assim, a ação mecânica se repete incansavelmente, como requisito formal preexistente a qualquer que seja o conteúdo que a nova questão traz, mesmo que os critérios formais sejam um entrave para ações mais do que legítimas, reconhecidamente necessárias e  alinhadas às propostas pelas quais o governo foi eleito, como é típico das democracias.  A burocracia deita e rola na utilização de tais prerrogativas, convencida de que defende a integridade do Estado ou, o que é muito pior, mas não tão incomum,  para preservar privilégios corporativos (muita gente gosta das coisas como estão) ou criar dificuldades para vender facilidades (as tortuosas formas como aqui em Yvy Marãey são atendidos os privilégios). Não por acaso um dos estratagemas mais comuns no manejo dos pequenos expedientes de governo, consiste em apontar os canhões da burocracia contra os interesses contrários, por mais legítimos que sejam. Não se pode desprezar também, a inércia (muita energia é necessária para mudar de rumo), a presunção de que o status quo esteja certo (cabe à mudança o ônus da prova), o medo (temor ao desconhecido), a natureza humana (competitiva e ambiciosa), a desconfiança (porque mesmo estão querendo mudar?), o ceticismo (isso pode dar certo em outro lugar, não aqui), o cinismo (não há nada que se possa fazer). Por isso, a população olha para o Estado e parece repetir com Proust: “Senhor, quantas virtudes me fazeis odiar.” Ou com uma patativa qualquer: Que coisa impressionante achar que aqui falta deus. Esse molengo gigante é anão moral mais que ateu.

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