Bordado N'Água

7. De a e z

January 23, 2019

Mas no mundo das sabedorias se poderia  saber também que quando a olha para z costuma ver muito pouco; para que a opulência persista convicta a miséria precisa ser  apenas paisagem. E a  enxerga aglomerados de barracos em pedaços de terra de fundo de vale sujeito a inundações; e na água preta de valeta que corre pelos becos   crianças descalças navegando em barquinhos de papel; e gente feia mal vestida com atitudes suspeitas puxando como cavalos carrinhos de catação de lixo que deve ser chamado de material reciclável; e por entre as frestas das paredes de tábua, lata, papelão, homens que batem e abusam de mulheres que batem em crianças abusadas por mulheres e homens; e agrupamentos de subgente agarrada à seringas infectas e cachimbinhos que usam nos intervalos das garrafadas; e aqui e acolá, dia sim outro também, cadáveres jovens feitos a balaços do tráfico e da violência policial. E a não vê que mais presentes que a sua caridade, estão na sua vida os muros, cercas elétricas, portarias; e que o seu desprezo é mais cortante do que as análises sociológicas das causas dessa infecção chamada z; e que é maior a repulsa de z pela opulência do que o medo dos poderes que a diz que tem; e raiva maior do que a que z tem de sua miséria, só a que sente pelo governo miserável. E  quando z olha para a quase nada pode ver.  A opulência é opaca para a miséria, só ostenta entre seus pares (exceção aos novos-ricos beócios); só deixa entrever muros altos acima dos quais sobressaem grandes telhados de múltiplas cores alinhados com perfeição; e portarias agitadas por onde entram e saem carrões a carregar quem manda; e nas portarias e cozinhas, jovens semiajoelhados maquiados por uniformes impecáveis; e por detrás das grossas paredes gritos e sussurros de gente de todos os sexos e idades em invisibilidade que só se islumbra em raras das muitas vezes em que morre um deles; e nos salões de festas seringas descartáveis, cachimbinhos e outras novidades entregues a domicílio, que usam nos intervalos das garrafadas. E a não vê que maior que o seu desprezo pela miséria só mesmo a inveja de z pela opulência; e mais profundas que as diferenças de renda só mesmo as de oportunidades; e que mais indignas que as diferenças, só as esmolas do populismo governamental insustentável e irredentor. E a não sabe o quanto desespera z  sua impotência para desafiar o destino; saber que, quase certamente,  depois dele serão seus filhos, e  às mesuras, abrir e fechar portões todos os dias, mesmo daqueles pátios em que nenhuma porta se abriu para suas mais comezinhas necessidades urgentes. E z  não sabe  quanto  desespera a ele a impotência que a tem de desafiar seu destino;  saber que, quase certamente, depois dele serão seus filhos, e escravos do poder e do tédio, fazer com que se abram e fechem portões todos os dias. E nas cabeças de a a z um vazio de consciência e de imaginação, e atrás do osso do peito uma garra que prende e sufoca, reclamando sentido e libertação.

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