Bordado N'Água

A crise

June 10, 2019

Quando, nalguma quadra, uma coisa como a que então se prenunciava tinha acontecido?

O gigantesco enxaguamento apagara a dimensão de tragédia épica do dilúvio. As guerras do século XX tinham deixado ilesos grandes territórios, que abrigavam a maioria das nações então existentes e a maior parte da população do planeta. Quem sabe a peste bubônica? A gripe aviária ou a  espanhola? O ebola? O HIV? A Grande Depressão? Mas a todos a humanidade tinha sobrevivido. E agora?

Nada até então se vislumbrara como um fenômeno potencialmente tão destrutivo, de tal magnitude, posto que seriam poucos os que não sofreriam com o flagelo; e relevância, uma vez que tais sofrimentos  seriam de fato atrozes; e invulnerabilidade – já que disso se tratava -  a quaisquer  providências  que a humanidade pudesse tomar a seu respeito; e transcendência, igualmente, uma vez que sua agressividade só poderia ser comparada -  muito mal  comparada – a um tsunami de proporções universais.

Tratava-se, de fato, de um fenômeno provavelmente epidêmico, fora do alcance explicativo das epidemiologias –clínica ou social -, por acuradas que lograssem ser - mesmo as emanadas das mais argutas correntes - no afã de interromper o espetáculo dantesco que se impunha em cadeia transnacional, global, quiçá cósmica.  

            Não se tratava de algo totalmente imprevisto - não obstante em nenhum momento tivesse permitido sequer um vislumbre de seu gigantismo -  emitira repetidos sinais de que, de fato, aconteceria. Muitos haviam primeiro intuído, para logo depois sentir e, relutantemente, por fim, dizer -  e repetir por muito tempo - que alguma coisa estava errada: uma bolha contaminante miasmática crescia a partir do centro  do mundo e, certamente – mesmo as maiorias presas na indiferença não ousaram discordar-, algum efeito produziria.

Os sintomas iniciais não foram expressivos: nenhum  urro de dor, nenhum relato de grande angústia, de bola de Charcot;  nenhum prurido anal,  odinofagia. Sinais? Mais raros ainda: uma febrícula; nenhum tumor, calor e rubor; nada de qualquer coisa em geral, muito menos um alerta patognomônico.

            Mas, embora por longo tempo tenha permanecido como não mais do que um vago mal-estar, a coisa, logo mais fenômeno, se impôs, e rapidamente demonstrou-se moléstia aguda com prenuncio de rápida falência de múltiplos órgãos; e, como se não bastasse a gravidade,  logo transbordou naquele avassalador caráter gangrenante sistêmico, de tal sorte que o mundo, carcaça combalida, gemeu agonizante e dobrou-se ameaçando tombar. Primeiro morreria o cérebro que é, em todos os casos,  o primeiro a morrer, depois, os tecidos viscerais seguidos pelas massas musculares e, finalmente, horas após o início do fim, os ossos, que são os mais duros de roer.

            As estruturas da sociedade mundial dos homens caquilharam. Melhor que isso, craquelaram, como canequinhas esmaltadas quando  ao cair no chão começam a se estilhaçar e, depois de recolhidas e seguras nas mãos, prosseguem estilhaçando-se num processo de arrepiar. Não poucos foram vistos pelos lugares com roupas estufadinhas sem que se soubesse o porque, enquanto por debaixo dos panos, traziam músculos eretores dos pelos em atividade de nunca antes igualado frenesi.

            É verdade que as instituições não tinham ficado paradas. Como em grandes noitadas de forró-com-turista, tinham - de variadas nacionalidades - posto-se a dançar: dançou homem com homem e mulher com mulher, ao som de berimbaus e balalaicas, o merengue e o samba quadrado, com bastante ou nenhum rebolado, na rua, na chuva e na fazenda.

Muitas coisas foram tentadas: novos líderes, velhos discursos, normas rediescritas,  juros pra cá e pra lá, poções ortomoleculares, vacinas, pacotes e medidas desempacotadas, socorro a bancos e outros socorros que tais, ainda que, admitamos, aos trancos e barrancos. Microorganismos  – primeiros agentes etiológicos suspeitos  - foram  combatidos com ressecações.  Mas, efeitos colaterais em ressecata obstruíram fluídos vitais que, assim como dinheiro em falta,  deixaram de irrigar o que tinha de se reproduzir: enregelaram-se empregos e espinhas, extinguiram-se consumo e consumidores, impostos, negócios, financiamentos e financiadores, liquidações, pituitárias, bolsos  e balcões e , infelizmente, não os impostores. O mundo deu os últimos passinhos de dança louca - tipo estaremos parando - ao som de tuba com gato,  piruetou levemente  e tipo...parou.

Genésio sabia que iria acontecer. Poderiam sabê-lo todos que tivessem usado o tato, a visão  e o olfato,  mais um leve esgar daquele olho, do centro do osso frontal do crânio, que lhe crescera há pouco. Ele até que tentara passar para outros o que conseguira perceber: tartamudeara emocionado, lancinara enfurecido, vagueara dislálico vociferante;  escrevera, desenhara, gesticulara e - reiteradamente ignorado – partira, incontinente, para os preparativos.

            Seu frenético ir e vir não chegou a chamar muito a atenção, uma vez que as pessoas tinham desenvolvido por método a condição de onidesatentas. As sucessivas cargas desembarcadas do veículo, sob o acobertamento daquele guarda-sol, fizeram apenas com que os vizinhos dessem de ombros, pois as compulsões de Genésio eram velhas conhecidas e o guarda-sol,  velho também. A empregada foi dispensada. Além da despensa muitos cômodos da casa ficaram atulhados - sótão e porão reservados para a água.  Genésio estourara o limite dos cartões de crédito e queria que os credores se lixassem, pois, em breve, a ordem do mundo não  faria mais sentido, ele sabia.

            Em meio a tais movimentos com toda aparência de sandice, à essas atitudes com pinta de alucinações paranóides e àquelas com jeitão de bipolaridade;  mediante os novidadescos tremores furtivos e descontinuados, às lalações sussuradas nunca compreensíveis, aos despertares assustadores dos pesadelos sempre mais freqüentes e pesadelados, só se podia esperar que a família mudasse. Sob  apelos de fé e juras de confiança seguidas de ameaças e esconjuramentos, um desolado Genésio viu a filha mais velha mudar para a casa do namorado e o filho adolescente para uma república de  estudantes de Caçador.  Ficou só ele e a velha.

            Durante dias dedicou-se a esmiuçar as providências que adotara, analisando riscos e traçando planos de contingência que o pusessem seguro de sua capacidade de resistir. Por conseqüência, fizera retoques nos estoques de remédios, livrara-se de uma parte da carga dos materiais de limpeza e banira da cabeça aquelas idéias recorrentes a respeito de ficar muitos meses sem tomar banho: pragmaticamente, adquirira todo o estoque de lencinhos higiênicos que encontrara.

            Mas eis que, inevitavelmente, o frenesi começou a diminuir e Genésio contrariado, ansioso e angustiado, viu surgirem  em sua mente espaços vazios que, incontinenti, foram, como sempre são - dizem que principalmente no ocidente - , ocupados por outras idéias. Pôs-se a pensar que suas minuciosas providências, por mais que outras vezes as renovasse, seriam sempre irrelevantes. Em qualquer hipótese, o tempo que poderia agüentar seria curto demais. E, por fim, quanto tempo agüentaria? E, mais do que isso, quanto importava agüentar? Afinal, veria outra vez rangerem as engrenagens do mundo? Lépido, ele (o mundo) outra vez saltitaria sobre molas enviagradas? E se tal  acontecesse, algum sentido novo seria acrescentado à sua (de Genésio) reles vida? Deixaria de ser alguém em luta contra si próprio, Genésios divididos num só corpo infeliz?

            Sentiu-se mal na vida mais uma vez,  mas de um mal que ainda não sentira vez nenhuma. Numa crise de lucidez pediu aos filhos que voltassem. Disse que de louco todo mundo tem um pouco, que o pai dos loucos, seu pai, era o  mundo; disse que, com um pouco de sorte, um dia eles iriam entender, não o mundo, mas o fato de serem louquinhos também, já que raros escapavam, se é que escapava alguém; e eles, sendo filhos, primeiro do mundo, seu pai, e depois dele, o pai  deles, não teriam a menor chance de estarem de fora da distribuição normal; mas que, naqueles dias recentes, lhes assegurava, tinha aprendido que isso não importava, acreditassem, pois surtar seria sempre uma possibilidade.

            Queria que soubessem que lutara genuinamente, sem nenhuma originalidade, o que fazia de sua luta algo ainda mais humanamente genuíno e que, sem rebeldias, resignara-se às opções desde sempre dadas a vislumbrar, exercendo seus papéis de funcionário, escoteiro, rotariano, pessoa jurídica e aeromodelista. É certo que naqueles dias recentes, abraçara aquela que, por um átimo, parecera ser a mais original de suas batalhas: sonhara acabar seus dias como a personalização da resistência humana nascida do vislumbre dos destroços da nave-mãe naufragada na sofreguidão global, despejados na praia da  sua solidão para seu alucinado sobreviver. Mas logo caíra em si. Caíra mais do que jamais caíra. Caíra tanto que passara para um buraco mais embaixo, onde era capaz de gozar o mais profundo gozo dos mais sagazes gozadores.

Não se desculpava nem queria compreensões, não havia explicações a serem dadas nem perdões a serem concedidos. Simplesmente enxergava, e queria apenas juntar seu ego ao seu corpo e aprisionar aquela sensação. Sonhava tão somente com a possibilidade de que pudessem, ele, seus filhos e a velha, beberem, resignadamente, daquele mesmo buraco embaixo, aquelas fontes abissais.

            Dito isso, que lhe soou como tudo, que mais haveria a dizer?  Agora era agir, como sempre fora de seu caráter,  meter mãos à obra, fazer o que importava: convidou a velha  para jantar – e que não estranhasse seu apetite – e, depois, para ir ao teatro, ou vice-versa.

 

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