Bordado N'Água

14. Pobre homem

February 3, 2019

Mas pobre homem. Não foi ele também que desenvolveu os ideais da filosofia? Da política e das ciências? Quando falamos de política não estaríamos falando apenas de políticos? Quando falamos de ciências não estaríamos falando somente de cientistas? Sei lá. Mas quando falamos de humanidade, necessariamente estamos falando de homens, embora já não existam ilusões de que isso se refira apenas a coisas boas. Mas o que poderia ter feito de diferente esse pobre diabo? Afinal não lhes disseram que deveria correr atrás do vento sem nunca perder a esperança? E você leitor, não está entre os que admiram a nobreza da ideia romântica de que nós desenvolvemos a agricultura para poder nos fixar nos lugares onde despertamos para nossas mensagens em tetos de caverna e para a construção das primeiras tentativas de templos e cemitérios? Vejam, foi o harari quem disse: ”A história da ética é um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue colocar em prática. A maioria dos cristãos não imitou cristo, a maioria dos budistas não conseguiu seguir os passos de buda, e a maioria dos confucianos teria causado um ataque de nervos a confúcio”. Parece verdade, mas 99,99% dos homens não fizeram na vida o que lhes mandaram fazer, ou lhes deixaram fazer, ou lhes ensinaram a fazer? Talvez divididos entre os que, não só por medo, mas por ativa resignação, mantiveram a dignidade, sofreram, mas não fizeram sofrer, e aqueles que enquanto sofriam sonhavam em ser tão opressores quanto os que os oprimiam e espalhavam, nem que fosse no estrito domicílio ou aldeia, toda a dor de que fossem capazes. Os poderosos construíram os sistemas de ideias que todos seguiram e fizeram que seguissem, em nome do que escolheram como um ideal de vida de ostentação, poder e consumo. E os que não estavam em nenhum desses lados é porque, simplesmente, não estavam no mundo. E se não estivessem entre os que procuram os lugares destinados ao afastamento do mundo com a intenção de se aproximarem de indefesos e praticarem suas perversões,  estavam confinados à solidão e ao silêncio de uma cela para livrar o mundo de suas presenças, como os padres do deserto africano ou os monges do himalaia, numa atitude incompreensível até mesmo para boa parte das filosofias, embora delas fossem seus filhos. Não parecemos  mesmo um pobre homem? Mas, algumas vezes, pobres homens foram capazes de testemunhar que, algumas vezes, foi possível não ser formiga vermelha mole bunduda. Ao menos algumas vezes. E não só na dimensão pessoal dos cristos, maomés, budas, confúcios e ghandis - quem sabe a que seria verdadeiramente decisiva - mas também em exemplos de obra coletiva como os preceitos morais da civilização do vale do rio indo, os dez  mandamentos, o código de hamurabi, o direito romano, a revolução francesa, a declaração universal dos direitos humanos, a organização das nações unidas,  a união comum européia.

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