Bordado N'Água

A minha fantástica cidade hostil

June 29, 2019

Cidades, como livros, realizam-se nas intersecções de autores, narrativas e leitores. Para que adquiram substância não pode faltar nenhum. Manifestam também um caráter, uma personalidade e um comportamento, determinação do que nelas se pode encontrar. Se for assim, pode existir a cidade de cada um, com suas diferenças e novidades a cada leitura. Fui a Londres e a minha primeira leitura me revelou um mundo fantástico. E hostil.

 

Coisas boas e ruins. No caso, todas elas, sem maniqueísmo, engendradas na pirataria de Sir Francis Drake, certificada e protegida por Elisabeth I,  na estratégia de rapinagem elegante que amealhou boa parte da fortuna do Império. A Londres que eu vi lembrou-me a usurpação reciclada, reorganizada com graça e resignificada em grandiosa arquitetura, mas também testemunhada pelas coleções de obras de arte cuja autoria e pertença seriam da Itália, do Egito, da Indochina, das Américas e de onde mais os seus heróis tenham vencido, pelas armas e pela diplomacia das esterlinas. Megacidade que cheira a paradoxo, exalado da presença de gente de mil partes do mundo  em convívio com as dissonantes  urnas do Brexit, a adensarem a milenar ideia de que ursos brancos no fosso da Torre de Londres ou crocodilos no Atlântico seriam a saída para as ameaças aos súditos da ilha, sejam os legítimos  seculares ou os imigrantes de agora.

 

A elegância está por toda parte. Nas casacas impecáveis dos mordomos nas portas dos palácios sob o frio implacável, a esperarem sem um segundo de desatenção o presumível desembarque de alguns nobres de um coche negro conduzido por um cocheiro com uma imensa capa negra, puxado por seis cavalos negros que levantam nas patas traseiras quando estancam na rua negra, sob ordens de Suas Excelências em mais um dia de fog negro. Está na troca da guarda no palácio de Buckingham com seus tambores rufados por sincronizadas baquetas, e nos passos de ganso dos soldados de elite que, após a bomba, os porta-aviões nucleares, a RAF , os drones e muitos outros, constituem a vigésima linha de defesa da simbólica rainha, e só perdem em perfeição de movimentos e cerimoniais para as marionetes de Kin Jong-un, no espetáculo que há séculos ali acontece para inglês ver,  acompanhado de crescentes multidões de turistas, hoje em dia com medo do terror.

 

Seus personagens são vendidos em todos os cantos e você pode encontrar os Beatles atravessando matreiros a Abbey Road todos os dias. Pode ouvir pelas esquinas sussurros de Falstaff, Hamlet, Lear, a lembrarem que as virtudes e as vicissitudes humanas foram reveladas para sempre e seu decifrador é inglês como só poderia ser. Pode trombar com o imaginário de barrigudos de fraque e cartola, crianças maltrapilhas pedintes, malfeitores de casaca listrada, trabalhadores esquálidos: poemas vivos que desfilam as denúncias de Dickens aos olhos dos vitorianos vitoriosos. E pode até tomar uma cerveja com a orelha esticada para a conversa de Sherlock Holmes no balcão de madeira vermelha ao lado, no pub de mesmo nome.

 

As monumentais tragédias adquirem em Londres o ethos da realeza, da fleuma que não se deve perder por nada, do pragmatismo no enfrentamento e no ir em frente,  e ficam parecendo desastres arrumadinhos, num contexto de história épica bem tecida, com seus registros realistas fantásticos. O grande incêndio de 1666 começou nada menos que na padaria do padeiro de Charles II em Pudding Lane, pois o homem foi dormir sem apagar o forno. Um terço da cidade  deixou de existir, mas o diminuto número de vítimas permitiu enquadrar a catástrofe apenas como oportunidade para sua reconstrução higiênica, favor divino muito mais do que maldição. Além do que, o incêndio botou a pá de cal na grande peste, que no ano anterior havia matado um quinto dos londrinos. Quase três séculos depois, nos difíceis anos pós-segunda guerra, os ingleses exportavam seu carvão de qualidade e consumiam o refugo com alta quantidade de enxofre. Num inverno rigoroso de muita neve as pessoas tiveram que queimar mais carvão para se aquecer. O fumo tóxico resultante retido na neblina regular sobre a cidade concentrou-se ainda mais por conta de uma inversão térmica e durante alguns dias invadiu casas e edifícios; em algumas semanas 12.000 pessoas morreram, entre mais de 100.000 que ficaram doentes.  

 

As tragédias mais recentes, cautelosamente, da minha parte não serão tema de crônica. O épico necessita de distância para ser contado com isenção. Mas não se pode deixar de ver em Londres as dezenas de aríetes de concreto plantados em pontos chaves de concentração de pessoas. Pontudos, pesadíssimos, fixados ao chão, recobertos de aço, prontos para partir em dois veículos que contra eles se arremessem nas imprevistas batalhas do terror atual. Diferentes daqueles dos meus filmes de infância com cercos a castelos, que acionados por cavalheiros punham abaixo portas aparentemente indestrutíveis para salvar princesas indefesas. Também não se pode deixar de sentir a falta de lixeiras na maioria dos lugares,  porque nelas bombas terroristas poderiam ser escondidas, e de apreciar, por exemplo,  a solução na forma de uma senhora bem uniformizada que circula pela Victoria Station disponibilizando um cesto vigiado onde se depositam os resíduos.

 

E entre tantas perplexidades, admirações e estranhamentos diante dos incontáveis memoriais aos tombados  das incontáveis guerras vividas por este povo, eis que avisto o mais enternecedor dos monumentos desta fantástica cidade. Um memorial dedicado a eles que, como as crianças, nunca entenderam nada, mas também tombaram: cavalos (nove milhões só na primeira guerra), cães, pombos, gatos, elefantes... Lá está, num lugar nobre, o  comovente memorial Animals in War, acompanhado da fleumática, pragmática, nobre, cínica, elegante inscrição: Não tivemos escolha.

 

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