Bordado N'Água

Brilhante para sempre

June 30, 2019

Mãe por setenta e seis anos. Uma mulher que viveu um século. Que teve seis filhos, quatorze netos, doze bisnetos. Foi viúva por trinta e seis anos, morou com uma filha por quase três décadas, dez anos numa casa para idosos, dois anos com perda intelectual progressiva, quatro meses quase totalmente presa à cama.

É claro que nesse tempo doenças e quebraduras, explosões assustadoras de obscuras energias psíquicas, internações hospitalares; tudo até que pouco do ponto de vista da quantidade, mas sempre muito para ser vivenciado por familiares, porque fraquejos de mãe são sempre assustadores para filhos, difíceis de suportar.

Nasceu numa família de onze irmãos, de uma mãe que, órfã com dez anos de idade, virou menina-mãe. Uma família de avós que tinham cruzado o Atlântico para fazer a América. Seus pais e avós eram agricultores e pedreiros, honestos, de rígidos códigos religiosos e morais. Pai Integralista. Ela passava a imagem de uma família de origem razoavelmente feliz, não obstante as muitas inevitáveis tragédias pelas quais haviam passado.

Uma família com espaço para a literatura e para os sonhos, em que lia romances para a mãe e juntas se permitiam emocionar. Talvez também por isso,  ela tenha sido uma romântica, que chorava e sorria amiúde com os pequenos dramas que lia e com os próprios que vivenciava, e até um pouco antes de seus últimos anos rabiscava projetos do que seria a casa de seus sonhos em papéis de embrulhar pão.

Suas caraminholas e sonhos pareciam ser sua prioridade.  Tinha alma de artista e, por certo, foram as inerentes distrações que garantiram as explosões de panelas que ferviam em  demasia esquecidas sobre fogões onde preparava a inevitável comida da família; mas devem ter garantido também o seu talento como figurinista e tricoteira, sempre  assoberbada, num atelier precário improvisado, de onde saíram muitas centenas de vestidos, costumes, casacos, blusões, que todos reconheciam lindos e encomendavam; mesmo atelier por onde entravam os parcos ganhos com os quais dividia com o marido o sempre difícil sustento da família numerosa.

Entendia da arte do vestir-se, dos paninhos especiais e das lãs.  Lia revistas de moda, acompanhava as tendências e criava propostas originais. Por isso, seus filhos sempre estavam entre os mais bem vestidos das festas e bailes, e alguns eram notórios arrebatadores de corações, sem dúvida com a ajuda de seus modelos. Com seu pouco dinheiro ela era a única que sabia se vestir bem entre as tias gordas e ricas, com a criatividade e a capacidade de improvisação que tinha. Entre todas, era a única que lia e que sabia se expressar falando bem.

Mas não sabia cobrar pela sua arte o que merecia, não sabia pedir o que necessitava, não sabia falar com tranquilidade das dores mentais que lhe afligiam. Era uma mulher que demorou muito para aprender a sorrir. Contava que um dia a mãe lhe dissera: “Nunca mostre os dentes. Rir é coisa de mulher vulgar”.

Por certo, imaginava-se valsando em bailes, em vestidos lindos por ela idealizados, mas nunca ia a baile algum. Sofria com as críticas daqueles parentes que a cobriam de discriminações: caboclinha, colona, mãe desleixada. E sofria com o silêncio do marido frente aquele punhado de irmãs e cunhados maledicentes para os quais ele trabalhava.

Como podia controlava essas dores dentro de si, misturadas a prováveis frustrações e traumas da casa paterna e do seu casamento, a segredos que eram só dela, a aspectos de sua psique dos quais talvez nunca tenha podido tomar consciência. E então, inúmeras vezes, essa misteriosa nitroglicerina interior explodia, com estrondos e danos que só tais explosões poderiam causar, fosse nos dias de quarto escuro fechado das incompreensíveis enxaquecas, quando se tornava dolorosamente inacessível, fosse nas frequentes, duras e intermináveis discussões de casal, tão ameaçadoras que  os filhos menores buscavam a ilusão de algum abrigo sob as cobertas dos irmãos mais velhos.

E muito disso tudo durou incríveis cem anos, quem sabe sem que os envolvidos tenham tido a chance de entender mais, conviver mais, aprender mais;  de compreender até onde eles próprios foram moldados nesse longevo turbilhão, nesse registro humano de manifestas contradições, nessa alma de artista, dessa mulher forte e poderosa, dessa mãe fora de seu tempo; e então, quem sabe, ter podido esmagar os traços neuróticos sob a força das manifestações de afetos não expressados, de conversas não tidas, de passeios não feitos, de reconhecimentos e gratidões não registradas.

Já há alguns anos antes de morrer ela repetia: “O que será que eu ainda tenho para fazer neste mundo? Todas as pessoas do meu tempo já morreram. Será que Deus me esqueceu aqui?” E alguém cogitara de que ela não morria porque tinha medo de Deus, ou porque fizera do sofrimento a razão da sua existência, ou porque o marca-passos, implantado há alguns anos,  fazia seu coração persistir batendo.

Mas talvez não, talvez ela de fato ainda tivesse alguma coisa para fazer neste mundo. E uma resposta plausível parecia envolver a conquista de um coração em paz. Do  qual já não brotasse a seiva do ressentimento que durante tantos anos a levara a fazer discursos queixosos, repetitivos, a respeito de suas frustrações passadas;  a faísca que detonava suas agressivas e fisicamente deformantes manifestações de ira; a inquietude que não lhe permitia nunca estar no momento presente, mas sempre numa ansiosa perseguição a um improvável futuro.

Que, enfim, de seu coração apaziguado renascesse, isso sim, a resignação face ao fim desta vida, não obstante, ela pudesse ter sido, como sempre, incompleta, apesar da longa duração. Que ela, apesar da constante severidade para consigo própria, se desse o direito de amar como nos bons momentos, todos os que, por desventura, pudesse ter afastado de seu coração, principalmente ela mesma. Que, enfim, morresse em paz, reconciliada consigo, com sua autoestima  e com seus amores.

E talvez, ela tenha de fato compreendido a missão que ainda lhe faltava e, com sua habitual exuberância, executado seu derradeiro “trajinho”,  tecido habilmente seu último e primoroso “blusão”. Mesmo que mantidas as incertezas não foram poucas as pistas que espalhou na direção da merecida paz. Há algum tempo tinha deixado os discursos de ressentimento. Já não fazia suas outrora constantes queixas do marido, mas confessava a profunda saudade que por ele sentia. As visitas de netos e bisnetos eram as que mais despertavam seus sorrisos. Sua vontade alquebrada já não dava conta de manter  penteado, adereços e roupas impecáveis e, querendo ou não, ela já não precisava devotar tanta atenção à imagem pessoal, como exaustivamente fizera por tantas décadas. Há uns poucos anos já não projetava as futuras casas dos sonhos em papéis de embrulho. Passou a entender que o Lar dos Velhinhos era sua melhor opção para viver, sem mais insistir em voltar para sua casa onde não admitia empregados e onde permanecia só o dia inteiro. No Lar, passou a participar de palestras, reuniões e festas que até algum tempo abominara,  e era ela que não esquecia das datas desses acontecimentos. Até sorrir nas fotos já tinha aprendido.

Antes de perder a vitalidade intelectual lia todos os livros que lhe traziam, fazia palavras cruzadas, apanhava na portaria do Lar os jornais e revistas e os lia antes de qualquer outro morador. Fazia à mão, em grande quantidade, admiráveis coloridos blusões que doava para crianças órfãs. Fez amizades que lhe acompanharam por passeios na cidade e com pessoas como o motorista de taxi, o padre, a psicóloga e muitas enfermeiras do Lar, que passaram a alimentar por ela grande admiração em razão de sua presença distinta, das  conversas que sabia manter, dos testemunhos que dava, da grande mulher que ela era.

Na sua última semana reuniu junto dela todos os filhos. Recebeu visitas de noras e genros, de netos e bisnetos. Foi internada por causa de um acidente vascular cerebral que em breves dois dias, surpreendentemente, não mais existia, teve alta e ressurgiu mais vibrante do que antes. Já não se entendia tudo que ela falava, não se sabia o quanto enxergava, escutava, compreendia, mas parecia se tratar de exatamente tudo. Disparou beijocas de repetição em filhos, netos e enfermeiras – ela outrora tão inafetiva; não dispensava, por todos os minutos possíveis, a mão de um filho na sua mão, e repetia: “Fica aqui comigo! Fica aqui comigo!”

Em sua mente semilúcida, punha-se a trabalhar com suas costuras: opinava sobre a adequação do vestido que uma filha trajava, dizia que ia lhe fazer uma calça preta, mas de pano leve, pois afinal, estávamos no verão. Notava o colar da filha observando que era muito bonito e que ela queria um igual. No pronto socorro, poucos minutos após o derrame, queria saber o que haviam feito com seus anéis. Ao médico que a visitou para lhe dar alta, observou que estava muito bonito, sobretudo com aquela roupa branca, que alisava como um bom “paninho” enquanto lhe falava, inclusive para lembrar que ele ainda deveria fazer três provas antes dela terminar o suposto casaco que estaria costurando para ele em suas fantasias.

Quando quis sair da cama para ir ao banheiro disseram-lhe que podia fazer xixi e cocô nas fraldas, e ela: “Shssss! Falem baixo sobre essas coisas.”

E logo depois, com seu hipertrofiado senso de observação, emendou que, certamente aquele guarda-roupa ao lado poderia estar melhor se tivesse sido aposto à parede em frente.

Quando quiseram dar-lhe a comunhão recusou, dizendo que naquelas circunstâncias não se sentia preparada. Quando quis primeiro confessar - para ficar preparada -, o padre sorrindo de lado observou: “Sim, porque deve estar cheia de pecados.” Quando reclamou de dor na boca e lhe explicaram que eram “sapinhos”, e que o nome da coisa era candidíase, passou a desenvolver teorias sobre a origem dos tais a que então só chamava solenemente de candidíase. E disse também que tinha reclamado antes da candidíase, mas que, por certo, as enfermeiras pensaram “que se tratava de algo banal”, para  então completar  com uma de suas palavras preferidas: “francamente!” Quando o médico pediu que erguesse a perna para testar-lhe a força depois do derrame, o fez tranquilamente, e como não lhe foi dito para baixá-la, manteve-a suspensa até segunda ordem. Quando os filhos quiseram repetir as manobras do médico ao examiná-la, ordenou: “Deixem estas experiências para mais tarde”.

Algumas vezes referiu-se aos afazeres de casa, sempre tão custosos para ela que queria empregar o tempo em suas costuras e livros.  Disse que precisava voltar pois havia muito a ser feito, pois quanto mais se fazia mais havia a fazer; que tinha de levantar e ir embora para servir a comida que fizera e estava esfriando. Ainda sobre fazer, disse que se devia fazer o que é impossível não ser feito, e indagada se já fizera coisas impossíveis respondeu, sem titubear: “Não, só desnecessárias.” E completou:”Tem coisas que não dá para modificar”.

Nos últimos três dias, principalmente, falou do marido, de seu pai, mãe, irmãos e tios; e de uma mulher de três metros de altura, extremamente bonita, que andava rondando por ali. E repetiu, mais do que qualquer outra coisa, que tinha pressa de ir embora. “Vamos, vamos, vamos...” “Estou cansada”. “Tenho pressa que chegue o dia de amanhã.”

Ainda passou por momentos de intranquilidade poucas horas antes de morrer. Mas não sofreu muito. Por certo, a lembrança maior poderá ser a de seus sorrisos de olhinhos sumidos brilhantes na boca sem as próteses, que ela jamais teria admitido se pudesse ter feito valer sua vontade. Ao vê-la sorrir um filho disse: “Mãe, nós estamos nos divertindo aqui, não é mesmo?” E ela, apesar de toda pressa para chegar ao Amanhã, respondeu: “Sim. Estamos nos divertindo. Estamos nos divertindo.”

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